Monday, October 26, 2009


Eclipses em desvão de caminho.
Dorme embaixo do texto
a vontade, o desejo de.
Vésperas. Por fora, no possível,
plausível e palpável,
grita o lugar-comum
da palavra previsível, ensaiada.
Esperas. Aquilo que tem trânsito livre,
o que pode, o permissível.
Eu escorrego, vadiando nas entrelinhas,
enquanto espero, ainda.
Ponto de partida para lugar nenhum,
zero a zero,
até quando,
até quanto,
até que.
Desabismos dos quases.
Antecedências anunciadas.
O branco inaudível,
inexplorado e inconcluso.



O que segura o futuro são apenas colunas de vento.

Sunday, August 30, 2009

imagem: magdalena wanli


o que se desenha
a partir daqui?
o quão redondo é o som
de uma porta que se abre?
que cadência e ritmo
tem o cheiro do capim cortado?
o que é velocidade?
ter mãos é para ver;
pés, é para sentir o chão?
ter ouvidos é para saber
do gosto salgado do mar
na concha da mão?
silêncio
de escutamento.

Saturday, August 22, 2009

imagem: mylens


então ficam aos poucos as paisagens para trás.
o olho acompanha a curva do vento, mas não é o vento.
o olho não adormece como antes,
está preso ao que vê.
o sol nasce nos olhos, de vez em quando,
mas eles não podem tocá-lo.
então ficarás agora novamente entre paredes
que guardam marcas da unha do tempo.
o chá que bebes tem cheiro de coisas esquecidas
e do que é preciso esquecer.
antes que as fendas se abram e exponham teus abismos,
a seda troca de lugar com a aspereza das segundas-feiras
iniciadas aos tropeços de sono e cansaço.
para isso nos moldaram, para silêncio e distância.
a mão não toca o que o olho vê (e quer).
só o vento.
mas ele não passa por aqui.

Sunday, July 19, 2009


eu preciso de um lugar
impreciso
onde não caiba nada
caiba de tudo
um pouco menos de juízo
um lugar menos chão
onde meus pés alcancem
acima abaixo
o universo além da mão
um lugar onde não saiba
o nome das ruas
anônimos me olhando
na avenida
formigueiro humano
embaixo do travesseiro
eu preciso de um lugar
que caiba em mim
onde não caibo mais
eu preciso

Saturday, March 07, 2009

ilustração: márcia cardeal
pouco a pouco, as pequenas coisas
desistem de você
como se desiste do sol que não veio
do araçá maduro na fruteira
da explicação do menino para
o desenho do sol olhando para baixo
numa cidade-fornalha
pouco a pouco, sem perceber
você veste a máscara
e, como todos, faz de conta
que entende tantos parágrafos vazios
artigo décimo terceiro
do capítulo cinco do estatuto
do conselho-de-não-sei-o-quê
pouco a pouco, como um jack-in-the-box
com a mola quebrada
seu personagem esquecido
também esquece
que para andar sobre nuvens
não é preciso mapas, nem regulamentos
pouco a pouco, não haverá mais nada
e tanto faz

Sunday, March 01, 2009

imagem de Magdalena Wanli
a vida em preto e branco
orquídeas petúnias
sal das águas verdes
mãos olhos
cacimbas e os pés na água turva
quem disse que
perto da morte se vê
tudo em um segundo?
é só uma veia que explode.
a morte é só um rio
um pouco mais pra lá.


desabandono.

Thursday, February 26, 2009

foto: Ariel Cardeal
fronteiras
antes
na quarta tarde
arde sem
beijo de cinzas
boca reticente
pele pela pele
que se toca
e não
nem pensar nisso
agora
justo agora
mas juro que sim
quis te contar
de uma vez
o que há
na entrelinha
e não
então
cruza teu olho
aberto no meu
antes que
tarde

Tuesday, February 03, 2009


não se preocupe
quando nascer passarinho
não vou lembrar mais
destas pedras
nem furo nas asas
despenhadeiro nem.
quando então, serei pluma.
apague pois rastros
tatuagens
as tardes impressas pelo calor
mãos e pés de adeus.
deixe apenas a caneca d'água,
perfume de folha amassada
entre os dedos nervosos
e aquela folha, deixe.


quando nascer
passarinho
não.

Monday, December 15, 2008

Esta ilustração é parte do livro de Tânia Minella
"Que Saudade que Dá" (ed. Nova Letra, Blumenau, SC).
fez esta belezura de composição!!!

Sunday, December 07, 2008

ilustração: márcia cardeal
derramar palavras
encolhidas
escapar da morte
acreditar no trabalho
e na sorte
furar no breu da noite
sem alarde
sem barulho
frestas de luz
atalhos
para um outro dia
deixar pronto
o campo
para a nova
semeadura